27 junho 2016

Entrevista: Jorge Cruz

Os fãs perguntaram, Jorge Cruz respondeu. Fiquem a saber tudo sobre o mítico salto, o cabelo, o jogador de futebol preferido, os seus companheiros em Diabo na Cruz, a Lebre, a inspiração para "Luzia" e muito mais.

Qual foi a melhor coisa que descobriste sobre ti próprio através de Diabo na Cruz?
A melhor não sei, mas descobri (e ainda descubro) imensas coisas. Por exemplo, descobri que posso ser um cantor e frontman convincente para uma banda de rock, algo em que não acreditava anteriormente. Descobri que não preciso de tentar fazer tudo na perfeição, o mais importante é encarar as coisas com a atitude certa. Descobri ainda que não preciso de ter vergonha de errar e que posso assumir os meus erros junto dos meus colegas sem recear ser incompreendido. Finalmente, descobri que uma boa parte dos meus sonhos de infância se tornariam realidade.

Podes ensinar-nos a dançar como tu? 
É fácil. Basta juntar os punhos à frente do peito e abanar os cotovelos para cima e para baixo ao ritmo da música que estiver a dar no momento.

A música "Armário da Glória" é sobre alguém ou algo em particular? 
Não é sobre ninguém em particular mas sobre muita gente ao mesmo tempo. A Glória Margarida representa um certo tipo de apreciador de arte urbano que se agarra a ícones internacionais do cool para validar o seu bom gosto e, enquanto mantém uma estranha ignorância sobre o seu próprio país, vê as expressões artísticas dedicadas ao Portugal profundo como exotismos ou curiosidades que não lhe dizem respeito.

A "Luzia" é uma clara referência a Viana do Castelo, às suas gentes e às festas da Srª d'Agonia. Algum de vocês é desta cidade ou conhece? Como surgiu a inspiração para esta música? 
Tenho recordações das festas da Sra. da Agonia desde a infância. A minha mãe é de Viana do Castelo. Desde o início que o traje e a cultura minhota estão presentes na nossa imagem e nos nossos discos, transmitem uma cor e vitalidade demasiado importantes para serem deixados para segundo plano. Quanto à Luzia, surgiu de um conceito que tentámos criar para o segundo disco sobre percorrer o país de Norte a Sul numa espécie de diáspora interna rumo a uma vida melhor. A Luzia foi das primeiras músicas a surgir e é uma história de amor sobre partir para começar do zero noutro lugar, daí ter uma referência de partida tão específica como as festas da Sra. da Agonia.

Na música "Canção do Monte", onde diz "de Baguim à Ponta" é uma referência a Baguim do Monte, freguesia de Gondomar onde viveste? 
É uma pergunta muito bem sacada. A referência é a Baguim do Monte, precisamente. Foi o local onde cresceu uma pessoa muito importante na minha vida. A música nasceu à volta da frase ”dá-me a tua mão” e é uma espécie de pedido de casamento.

Existe alguma história por detrás daquele mítico salto que faz em todos os concertos?
É uma boa pergunta porque com o passar do tempo já me esqueci quando terá acontecido pela primeira vez. Sei que surgiu por altura da tour do Roque Popular e tal como outras coisas em Diabo na Cruz tornou-se um ritual. Um concerto de banda de rock é uma espécie de cerimónia e há muitas coisas em Diabo que são ritualizadas, há rituais que desaparecem, outros que nascem para os substituir, mas no fundo há sempre comportamentos que se repetem de forma ritualizada e que vão representando os diferentes estádios do nosso processo e da nossa missão.

Qual é o teu jogador de futebol preferido? E se Diabo na Cruz fosse uma equipa de futebol, em que posição jogaria cada um dos seus elementos? 
O meu jogador preferido talvez o Paulo Futre. Vi-o ao vivo pela primeira vez no estádio do Jamor em '84 e quando estava a crescer ele era o melhor jogador português, milhas à frente dos restantes, só mais tarde com a "geração de ouro" viemos a ter jogadores desse nível em quantidade. Hoje em dia, o meu jogador preferido é o Adrien Silva. Gosto da sua competência, raça e confiabilidade. É fundamental cada equipa ter um capitão que, faça chuva ou faça sol, não abandona o barco.

Se Diabo na Cruz fosse uma equipa de futebol acho que o João Pinheiro seria o guarda-redes Higuita, sempre pronto para dar show, fazer grandes defesas e arriscar-se em deambulações inesperadas. O Bernardo Barata seria aquele defesa central discreto e com classe, à italiana, um Baresi, Costacurta ou Canavarro. O Manuel Pinheiro, aquele defesa jovem e polivalente que pode fazer qualquer uma das laterais e posições do meio campo, estilo André Almeida ou mesmo Fábio Coentrão. O João Gil seria aquele extremo direito clássico que dá 5 cruzamentos perigosos por jogo e ainda tem duas oportunidades de golo, como um Simão Sabrosa, por exemplo. O Sérgio Pires, o extremo esquerdo adaptado que pode fazer qualquer posição no campo, com tendência a vir para o centro buscar jogo mas antes de mais um jogador de equipa, role-player e pensador de jogo, tipo Muller, ou Zanetti. Posto isto, e dado que o centro do terreno está todo por ocupar, eu seria aquele 8 box-to-box, às vezes atrás a fazer 6, outras vezes a 10 ou a falso 9. Uma espécie de Pirlo barra Postiga, no fundo.

Ó Jorge, o que te passou pela cabeça para cortares o cabelo como tens no videoclip da Luzia? O que tens a dizer acerca da evolução do teu cabelo ao longo dos anos?
Cortei o cabelo para o Luzia no dia das filmagens, mas já tinha usado o moicano antes, nos concertos de apresentação do disco Roque Popular. O disco demonstrava uma perspectiva mais radical do nosso propósito enquanto banda e eu estava à procura de representar esse momento confrontativo e desconfortável de alguma maneira. O moicano pareceu-me boa ideia. Desde miúdo que experimento cortes de cabelo diferentes mas ainda não tinha experimentado esse. No caso do teledisco do Luzia, tentei fazer um contraste imediato com aquele mundo de tradições, colorido e romântico, ao responder com uma imagem mais agressiva e contemporânea. Quanto à evolução do meu cabelo ao longo do tempo, acredito que continuará a acontecer. Não me estou a ver com este penteadinho à Morrissey meets David Carreira para sempre.

O QUE É A LEBRE????!! 
A Lebre é o fio condutor da obra de Diabo. Está na primeira música do primeiro disco e, se Deus quiser, há-de estar na última música do último disco.

Quem é o "Moby português"?
Não sei quem é, mas houve, em tempos, quem andasse à sua procura. Essa referência ao Moby português no Tão Lindo é dedicada a uma geração que passou o tempo a achar que em Portugal os músicos deviam ser meras cópias do que de bom existisse lá fora.

Em que momento percebeste que era esta a formação certa de Diabo na Cruz, que todas as peças encaixavam no desígnio da banda? 
Bom, as mudanças que o disco Roque Popular precipitou foram profundas. Estávamos com alguma dificuldade em tocar as canções ao vivo, a forma como o conceito e os arranjos tinham sido construídos sentia-se como opressiva em palco e a banda estava diferente quer em termos práticos quer em termos emocionais. Foi um processo que durou um ou dois anos. Fomos tirando coisas no papel de toda a gente até cada um de nós ficar com uma espécie de versão sintetizada daquilo que faz na banda. O que esse processo permitiu foi abandonarmos territórios onde chocávamos e encontrarmos realmente um puzzle em que as peças se encaixam sem se sobreporem. E isto aplica-se também às nossas personalidades. Tivemos de fazer um trabalho assumido de verbalização de sentimentos, de frustrações e de dúvidas até nos conhecermos melhor e podermos ser um verdadeiro grupo. Para este terceiro disco, encontrámos uma forma de funcionar que é sólida, constante e saudável. Admite algumas variações mas procura sempre respeitar o bem comum e a nossa missão enquanto grupo. Julgo que isso nos tem tornado mais cúmplices e companheiros.

A verdade é que cada pessoa nesta banda é diferente e acaba por ter um papel diferente. O João Pinheiro é o coração do grupo. Um coração apaixonado e com aquela pitada de loucura que é fundamental para as coisas terem rasgo. É preciso ser-se um pouco louco para se ser músico de rock em Portugal e ele é o lembrete daquilo que nos traz até aqui. Por outro lado, essa loucura e paixão têm grande tendência a influenciar o nosso ritmo cardíaco musical e emocional, pelo que é sobre ele que recai a responsabilidade de gerir os nossos estados com moderação. O Bernardo Barata é quem nos impede de sermos um bando de neandertais à solta dentro de uma carrinha de 9 lugares. Empresta-nos uma dose de chá que é fundamental em algumas ocasiões. Foi quando o vi a tocar baixo em Feromona que consegui visualizar Diabo na Cruz a nascer. A sua maneira específica de tocar, de estar e de gostar de música está na origem disto tudo. O João Gil é quem desde o início nos traz alguma esperança de sofisticação musical. É extremamente sensível pessoal e musicalmente e, em ultima análise, para ele o que importa é a música. Se lhe atirarmos uma melodia nova ele toca-a à primeira, no máximo à segunda. Por outro lado, se for preciso inventar uma malha é capaz de fazer três ou quatro diferentes no espaço de dois minutos, é uma questão de se escolher. Desde o início, que o Gil eleva a nossa música para outro nível. O Manel Pinheiro é um verdadeiro biscateiro do rock. Se a torneira está a pingar, chama o Manel Pinheiro. A persiana não fecha, chama o Manel Pinheiro. Dói-me o lado direito da barriga e o esquerdo da cabeça, chama o Manel Pinheiro. Há sempre alguma coisa para resolver, e o Manel é quem arranja soluções. Com a evolução do grupo, o papel dele foi mudando consoante aquilo que estávamos à procura e foi sempre impressionante a facilidade que demonstrou em adaptar-se a novas perspectivas e encontrar formas de contribuir. Com o Manel Pinheiro em Diabo na Cruz não há desculpas para termos uma sonoridade limitada ou repetitiva. Já o Sérgio Pires é a cola que une Diabo na Cruz. Foi a sua ética de trabalho, o seu apreço pela profissão que temos e a sua dedicação que deram o tom para uma nova forma de trabalhar na banda. E foi a sua personalidade humana e consensual que nos aproximou uns dos outros quando atravessámos momentos mais difíceis. A sua chegada à banda foi uma lufada de ar fresco e é muito devido à sua forma de cuidar do grupo que permanecemos juntos hoje.

Escrever canções alegres é-te natural ou fazes um esforço consciente para transmitires essa alegria na música da banda? Fazer canções felizes faz-te mais feliz?
Fazer canções felizes faz-me mais feliz até porque tem o efeito de trazer boas vibrações às pessoas que as ouvem o que é uma recompensa preciosa, depois do trabalho que dão a fazer. Julgo que um certo tipo de canções com uma mensagem positiva de perseverança me sai naturalmente, aliás, procuro nos temas das canções encontrar pontos de vista que me sejam naturais para que as coisas façam sentido mas, para não fugir ao cerne desta questão, a expressão de sentimentos de abandono, incompreensão, melancolia etc. é muito espontânea para alguém que tem de isolar-se do mundo para criar um objecto artístico. Tenho a certeza de que conseguiria compor um álbum inteiro de músicas miseráveis e sinceras de um dia para o outro, sem grande esforço. Por outro lado, para escrever uma boa canção animadora é preciso mobilizar muita energia, até porque são raras as canções alegres que não soam palermas.


➤ Ver também:
Entrevista: Sérgio Pires
Entrevista: Manuel Pinheiro
Entrevista: João Pinheiro
Entrevista: Bernardo Barata
Entrevista: João Gil

4 comentários:

Mariana Lopes disse...

Uma das melhores entrevistas que já li!

Rui P. Gomes disse...

Gostei muito, particularmente da análise filosófica de cada um dos elementos da banda, sendo que faltou a análise ao próprio Jorge Cruz... Rsrs

Rodrigo Castro disse...

Muito bom. Assim se vê a força de uma banda. Uma grande banda precisa de um grande líder que reconheça o grande valor dos seus companheiros.

Diogo disse...

Alguém que ponha o Jorge Cruz a escrever sobre futebol. Jorge Cruz a comentador desportivo, já!