19 julho 2016

Entrevista: Sérgio Pires

Foi o último a entrar, mas já ninguém consegue imaginar Diabo na Cruz sem ele. Sérgio Pires responde a perguntas sobre o seu Porto, a entrada para a banda, os Sloppy Joe, a braguesa e os outros instrumentos.

Como é que chegaste aos Diabo na Cruz? Já tinhas visto algum concerto antes de entrares? 
Conheci o Jorge Cruz creio que na Primavera de 2005, numa jam session de jazz na cidade do Porto. Fomos acompanhando o percurso um do outro com interesse e participei, a convite dele, como instrumentista em trabalhos anteriores seus. Fiquei um admirador confesso do seu trabalho, em particular da sua escrita, e acabámos por ficar amigos até hoje.

Morava já o Jorge em Lisboa, quando me fez chegar aos ouvidos uma gravação de um dos primeiros ensaios de Diabo. A qualidade da gravação não era a melhor, mas havia qualquer coisa de vibrante e fresco no que tinha ouvido que me fez ficar imediatamente fã da banda. Tive a oportunidade de os ver nas primeiras vezes que foram actuar ao Porto e tive até o privilégio de ser roadie num fim-de-semana de concertos a sul de Portugal.

Lembro-me que estava a comprar o meu jantar num supermercado em Bruxelas, cidade onde na altura residia a meias com Vila Nova de Gaia, quando recebo uma chamada do Jorge a fazer-me o convite para entrar na banda. Na altura a proposta consistia em fazer o trabalho de "side man", ou seja, dada a complexidade e densidade instrumental do disco que viria a ser o Roque Popular, seria necessário alguém para complementar, com vários instrumentos, as necessidades específicas das músicas quando transpostas para o palco. Essa pessoa seria eu. Fiquei entusiasmado e perplexo com o desafio e um pouco assustado também, pois antevia que as mudanças que iriam acontecer na minha vida seriam muitas. Estávamos, se não me engano, no Inverno de 2011, na fase final do processo de gravação do Roque Popular.

Foste o último a entrar, por isso conheces a banda de perspectivas diferentes. Como foi olhar esta banda primeiro de fora e depois por dentro? Como foi entrar com a "máquina já em pleno andamento", como correu essa fase de inserção e adaptação? 
O meu olhar de fora creio ter ficado claro na resposta anterior, era já fã da banda e sabia o Virou! de cor, de uma ponta à outra. Entrar com a "máquina em andamento" e a adaptação à banda na primeira fase não foi assim tão fácil, tenho de admitir. Chego numa altura complexa, de mudanças profundas, e não falta muito até começarem os primeiros concertos da tour do Roque Popular. Tenho pouco tempo para contemplações e é preciso entrar no ritmo o mais rápido possível, aprender as músicas, ensaiar, aprender alguns instrumentos novos e sobretudo adaptar-me a uma forma de trabalho e a uma dinâmica totalmente diferente da que, até então, tinha encontrado nas inúmeras bandas por onde tinha passado. Precisava sobretudo de trabalhar papéis novos para mim, assim como a atitude certa para os encarar. Depois da terapia de choque que foram os primeiros ensaios e concertos, creio ter-me adaptado a um papel que hoje considero meu e tornei-me melhor músico e mais preparado para os desafios que possam surgir. Felizmente fui muito bem recebido por todos, sem desconfianças aparentes, e senti de todos a vontade de ajudar. Hoje adoro cada um dos membros desta banda e custa-me honestamente imaginar a vida sem eles por perto.

Gostava de saber de onde veio o gosto pela viola braguesa. Não é muito complicado de aprender? 
O gosto pela viola braguesa veio por necessidade, pois aprendi a tocá-la para suprir uma necessidade nos Diabo na Cruz. Não sendo a resposta mais romântica à questão, a verdade é que acabei por me apaixonar pelo instrumento. Eu sou um amante da música tradicional portuguesa, assim como dos nossos instrumentos, particularmente dos cordofones, foi só juntar o útil ao agradável. Sinceramente não foi muito complicado aprender a dar os primeiros passos, mas, como em todos os instrumentos, depois é um caminho longo e desafiante que cabe a nós percorrer no sentido de fazer do instrumento que tocamos uma parte natural de nós e da nossa expressão enquanto artistas e instrumentistas.

A braguesa acabou por virar uma marca de água dos Diabo, tal como, por exemplo, a gaita-de-foles fez nos Sétima Legião. Pensam incluir, mesmo que apenas através de convidados, mais instrumentos da música popular (ou tradicional, como lhe quiserem chamar) portuguesa em futuros trabalhos?
Não faço ideia ainda do que poderá acontecer num futuro trabalho, mas creio que se essa necessidade ou vontade surgir, estou pronto para encarar esse desafio com entusiasmo, pois pouco me faz mais feliz do que poder explorar um instrumento novo e dele fazer música. Quanto à braguesa e outros instrumentos tradicionais que usamos, estão cá para ficar, são parte da identidade da banda e da música que dela nasce.

Podes explicar o que o Jorge Cruz quer dizer quando disse numa entrevista: "O Sérgio Pires leva a braguesa para um outro campeonato"? Que "outras" sonoridades são essas? 
Bom, a melhor pessoa para responder à pergunta seria o Jorge, mas tentando adivinhar, imagino que possa ser pela vontade em trazer a braguesa para a frente, para competir com a bateria do João e a guitarra do Jorge, porque apesar de aprender com a tradição e respeitar a história, quero fazer daquele instrumento também uma arma de rock'n'roll, explorar potencialidades sónicas e subverter conceitos. Ou então apenas fazer as pessoas dançar sem vergonha uma modinha algarvia ou um vira minhoto.

O que é que fazes mais além de Diabo?
Até ao início do processo de gravação do último álbum, dividia o meu tempo entre os Diabo e muitos outros projectos musicais, assim como na montagem de espectáculos, road manager e roadie. Nos últimos 2/3 anos estive quase exclusivamente focado em Diabo, num processo onde estive muito envolvido desde o início e que me deu uma satisfação enorme, quer pelo processo quer pela recompensa por todo o trabalho. Faço habitualmente também música para filmes e publicidade, trabalho esse que me dá um gozo enorme também.

Já pensaste em voltar a reunir os Sloppy Joe?
Estou absolutamente surpreso com esta pergunta e ao mesmo tempo feliz por saber que alguém ainda se lembra dos Sloppy Joe. Sim, já pensei centenas de vezes nisso, assim como pensaram os outros membros. Os Sloppy duraram, enquanto banda em actividade, 10 anos, que foram dos meus 15 anos aos meus 25/26. Foram anos super intensos, quer a nível pessoal de crescimento e aprendizagem, quer a nível musical, pois felizmente pude correr o país de alto a baixo a tocar com a banda. Foram anos mágicos, inesquecíveis e definitivos enquanto caminho para mim. Dela faziam parte, além do meu irmão, duas pessoas que ainda hoje são dos meus melhores amigos. Com eles aprendi e vivi tudo aquilo que me faz ser a pessoa e músico que sou. A banda parou por necessidade, sobretudo minha, de experimentar coisas novas e novos papéis, mas a amizade e cumplicidade entre nós só cresceu, por isso não duvido que um dia, nem que seja de bengalas, possamos outra vez pisar o palco juntos e fazer música felizes.

Quantos instrumentos sabes tocar?
Honestamente não sei... porque não sei até onde vai o conceito de saber tocar um instrumento. Tenho uma forte paixão pela exploração sonora, por instrumentos novos e desconhecidos para mim, gosto de os testar e testar-me até ao ponto de ser possível exprimir-me com eles. Toco guitarra desde puto por essas praias e ruas fora, tive formação jazz em baixo eléctrico e alguma formação em percussão e bateria, creio ser essa a minha base. Depois gosto de experimentar de tudo um pouco, tenho em casa instrumentos parados à espera da sua vez e não consigo resistir a ter mais na fila. Nunca me considerei um instrumentista por definição. Mais do que saber quantos instrumentos toco, prefiro imaginar quantos posso vir a tocar.

És de que clube de futebol?
Sou um fervoroso e apaixonado adepto do Futebol Clube do Porto, pois claro.

Como é que é para um portuense viver em Lisboa? Não tens saudades da melhor cidade do mundo? De que é que tens mais saudades no Porto?
Gosto bastante de viver em Lisboa, a cidade é linda e desfruto ao máximo do que ela me pode oferecer, tenho cá família e amigos e este tempo maravilhoso que é um autêntico privilégio.
Sim, morro de saudades do Porto, passo grandes temporadas sem voltar à base e isso custa-me imenso. São tantas as coisas de que sinto falta, mas não querendo correr o risco de me tornar aborrecido, escrevo apenas algumas. Creio que o que me deixa mais saudades são obviamente a família e os amigos, sobretudo o meu pai. A escala da cidade, o à vontade e a garra dos portuenses e do nosso sotaque, a ideia de que posso sair à rua, qualquer rua, em qualquer dia e a qualquer hora e encontrar sempre alguém para conversar. Ir Domingo ao Dragão ver o meu Porto jogar.

Que importância tem para ti a descentralização da música em Portugal? Sendo um músico do Porto que rumou a Lisboa, sentes que estás a contribuir para o monopólio da capital ou trazes a tua cidade para aquilo que fazes?
A centralização existe, acho que isso é um dado assente, na música e nas artes como em outras áreas da sociedade. É importante e fundamental para o país existirem focos criativos e dinâmicos fora dos grandes centros urbanos e da capital, assim como o seu incentivo. A diversidade e a pluralidade são factores essenciais para um artista e para o desenvolvimento de uma nação culta e esclarecida e fazem parte do nosso património cultural desde sempre. Existem muitos e bons exemplos de manifestações culturais e focos criativos fora de Lisboa, haja espaço para eles e incentivos para quem os mantém, muitas vezes com dificuldade e resiliência, de forma a criarmos público que os possa apreciar e julgar também.

Infelizmente creio que vejo o Porto a perder algo que lhe foi característico durante tanto tempo, que é uma certa noção de vanguarda criativa, de resistência e garra, de vontade de ser diferente e audaz, sobretudo na música. Não desejo ver a minha cidade implodir em hostéis, tuk-tuks e tascos pseudo gourmets, onde a única diversão e manifestação cultural à vista é beber copos na rua e pouco mais. Espero estar terrivelmente enganado e isto ser uma visão de quem está longe e que a cidade e os seus artistas me possam provar o contrário.

Não sinto que contribua para o monopólio da capital, até porque estou numa banda onde os seus membros são naturais de diferentes zonas do país, que vai beber influências de Norte a Sul, do Interior ao Litoral, mas sobretudo porque é uma banda que toca orgulhosamente em todo o território, com a mesma paixão e humildade, e isso devemos às pessoas que gostam de nós, e essas felizmente estão por todo lado. Creio ser impossível para mim não levar as minhas raízes para tudo aquilo que faço. Como se costuma dizer: "podes sair do bairro, mas o bairro não sai de ti".

Qual é a música de Diabo na Cruz que a braguesa mais gosta de tocar?
Esta é difícil, mas, a ter de escolher uma neste alinhamento mais recente, vou escolher a Vida de Estrada, pois posso explorar várias abordagens rítmicas na braguesa, desde uma abordagem mais tradicional até uma mais roqueira e ainda ter espaço para alguma loucura sónica mais exploratória.

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2 comentários:

Rodolfo Rosário Neves disse...

Que maravilha de entrevista, Sérgio és o maior!

Soul Surfer disse...

Dá-lhe! :)